
Eu e as crianças no aniversário da Helena
Oi amigos,
Uma vez me perguntaram como é escrever um blog, como eu escolho o assunto sobre o qual vou escrever no dia. Quando montamos o blog, a ideia era colocar o nosso dia a dia do tratamento e de todas as coisas que o envolviam. Lembro que a Luciana sempre escrevia no início, até que ela chegou e falou: Amor, hoje você vai escrever...afinal o nome do blog é Luciana e Woltony! Em vários momentos fomos criticados, principalmente pela exposição que isso causava ou por muitas vezes os nossos textos parecerem ser pesados demais. A gente até comentava que a realidade era muito mais dura do que o que estava ali escrito e que nos guiávamos pelo que o nosso coração falava na hora. Claro que muita coisa ficou de fora, porque achávamos que não valia a pena escrever, mas quando algum assunto ficava no nosso coração durante um tempo, fatalmente a gente trazia para cá.
Esse fim de semana eu estive em São Paulo, visitando alguns amigos. Foi muito rever pessoas tão queridas e poder conhecer outras que só conheço através do blog. Conversamos muito sobre a Luciana, sobre as crianças e sobre o desafio do luto e dessa nova fase. Por uma coincidência, o dia 27 de Março caiu num domingo, justamente o dia da semana em que a Luciana faleceu. Hoje estava pensando na coincidência de estar em SP num domingo onde lembramos os nove meses da partida do meu grande amor e enquanto pensava nisso fiquei sabendo que o ex-vice-presidente José Alencar havia falecido, no mesmo hospital onde a Luciana havia feito o tratamento. Ainda comovido com o falecimento dele, resolvi escrever um pouco sobre a morte.
Como sempre, não é a minha ideia fazer um tratado filosófico sobre a morte, mas sim falar um pouco sobre como hoje eu vejo a morte. Uma preocupação que eu via que as pessoas tinham comigo, especialmente os mais próximos, era se eu teria vontade de acabar com a minha própria vida, uma vez que eu e a Luciana sempre fomos muito unidos e que também falávamos que a nossa vontade era morrermos juntos, pois não conseguíamos imaginar viver um sem o outro. Eu nunca tive vontade de me matar, mas tenho que confessar que a vida perdeu muito a graça. Antigamente eu brincava com a Luciana que a minha vontade era que vivêssemos pelo menos uns 50 anos de casados e aí morrêssemos os dois bem velhinhos. Falava até que tinha o sonho de sermos um casal de velhinhos bem bonitinhos, daqueles que exalam amor e companheirismo. Hoje em dia procuro não fazer muitos planos ou pensar se vou viver muito ou pouco. Quando penso em futuro, penso mais nas crianças do que em mim mesmo.
Um outro detalhe é que a morte deixou de ter aquela conotação tão pesada. Conversava isso no sábado com uma amiga que também é viúva e que perdeu o marido (um grande amigo meu) há 5 anos. Não que a gente ache que a morte é algo bom, mas encaramos com mais naturalidade quando alguém morre. Esses dias eu fui ao cemitério aqui de Brasília e prestei atenção na quantidade de pessoas que faleceram após a Luciana. Fiz uma conta bem “no chute” e deveria ter mais de 500 pessoas entre jovens, crianças, idosos, vítimas de acidente ou mesmo alguma enfermidade. Mais de 500 histórias diferentes, cada uma com sonhos, lutas, alegrias e tristezas. Ali, naquele lugar, a gente não procura comparar se uma dor é maior que a outra, mas nos solidarizamos com quem fica, com quem agora chora e sente saudade.
Esses dias eu ouvi algo muito interessante. A pessoa falava que ninguém aceitaria correr uma maratona se não soubesse que a mesma teria um fim. Ninguém aceitaria correr quilômetros e mais quilômetros se não tivesse a expectativa quem um dia cruzaria a linha de chegada. E o que hoje nos dá esperança é saber que essa linha de chegada não está aqui, não se chama morte mas se chama vida eterna. Como falava aquele vídeo do Zac Smith que eu coloquei em um dos últimos posts, tenho certeza que agora a Luciana está curada. Que o que tanto oramos finalmente se concretizou e que ela está sendo muito mais bem cuidada agora. Sem falar tanto em convicções religiosas, sei e sinto que ela está bem e que de alguma forma estamos unidos, independente da distância.
Falando um pouco das crianças, a Helena hoje começou a andar sozinha! Estamos todos muito felizes e muito animados! Ela já esta com 6 dentinhos e a cada dia está mais espertinha. O Pedro tem se desenvolvido super bem e está melhorando a adaptação na nova turminha na escola. Hoje conversei com a professora e a mesma falou que ele é uma criança ótima, em alguns momentos um pouco tímido, e que é muito esperto e colaborativo.
Amigos, desculpa se o tema principal do post hoje foi um pouco pesado, mas realmente a morte do Jose Alencar me tocou profundamente. Chegamos a encontrar com ele duas vezes lá no hospital e em uma delas ele conversou com a Luciana.
Antes de me despedir, gostaria de deixar uma frase que li esses dias sobre a morte:
A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace (Victor Hugo)
Um grande abraço meus amigos e fiquem com Deus!
Woltony, Luciana (eternamente), Pedro e Helena